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Relação entre maternidade e mercado de trabalho é tema de pesquisa internacional na UFPA Imprimir
Escrito por Administrator   
Seg, 14 de Maio de 2018 08:47

De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), em pelo menos 40% dos lares brasileiros as mulheres são as chefes de família. Uma investigação científica em andamento na Universidade Federal do Pará (UFPA) observa as demandas de mulheres brasileiras e portuguesas que são mães, chefes de suas famílias e que precisam de apoios governamentais, como por exemplo o Bolsa Família.

A pesquisa “Políticas familiares direcionadas para conciliação entre trabalho profissional e trabalho familiar da mulher chefe de família no Brasil e Portugal” é liderada por integrantes do Programa de Pós Graduação em Serviço Social da UFPA, sob coordenação da professora Adriana Azevedo Mathis. O mesmo estudo será feito em Portugal, por pesquisadores do Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE). O objetivo é avaliar se as políticas familiares governamentais são adequadas às reais necessidades das famílias usuárias de programas e projetos sociais.

Dificuldades comuns - O estudo nasceu a partir de demandas apresentadas por movimentos e organizações sociais que alertam para hiatos em critérios de acompanhamento e manutenção das iniciativas de apoio dos Governos a essas mulheres e seus filhos.

Segundo a professora Adriana Mathis, os dados preliminares do estudo apontam que há uma série de dados investigados que são comuns ao Brasil e Portugal e que já foram observados e estudados pela equipe. Entre eles o nível de desigualdade social e de rendimento entre homens e mulheres, o alto índice de famílias chefiadas por mulheres em situação de pobreza e o elevado percentual de mulheres em trabalhos precarizados.

Pesquisa iniciada em Belém - Em Belém, o projeto entrevista mulheres em situação de vulnerabilidade social assistidas por unidades CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) e NASF (Núcleo de Apoio à Saúde da Família) da região metropolitana da capital. E em Portugal, as entrevistas são realizadas nos centros de apoio familiar e aconselhamento parental (CAPAF) vinculados à política de segurança social de Lisboa.

Na capital paraense a pesquisa de campo já revelou problemas como a inserção precária das mulheres pesquisadas no mercado de trabalho e a dificuldade de conciliação entre o trabalho profissional e trabalho familiar das mulheres chefes de família, resultados que trazem outras questões aos pesquisadores.

Quem ficará com meus filhos? - Isso abre discussão para muitas outras questões, como a falta de apoio familiar e de condições financeiras. “Se a geração da minha mãe conseguiu se qualificar e entrar no mercado e as mulheres da minha geração tiveram que assumir a dupla ou tripla jornada de trabalho, a geração atual se depara com duas realidades extremamente desiguais: de um lado, mulheres que conseguiram uma certa estabilidade por conta da alta escolaridade, alcançaram posições de destaque profissional e podem pagar escolas, creches e cuidadoras para a realização do trabalho familiar; e de outro lado, mulheres que se inserem em atividades precarizadas por conta da baixa qualificação e têm dificuldade de se manter no mercado de trabalho por conta da baixa renda, da ausência de equipamentos sociais necessários para viabilizar os cuidados da família e que se ressentem de políticas públicas que realmente atendam suas necessidades. Neste último caso, as mulheres terminam retornando para casa, o que significa um retrocesso se considerarmos os avanços recentes registrados no Brasil em termos de garantia de direitos sociais para as mulheres”, argumenta a pesquisadora.

Esse já foi o caso de Marisandra Matos, que recebe o Bolsa Família por dois dos três filhos. Quando os filhos eram mais novos, ela lembra que foi muito difícil se manter trabalhando porque nem sempre havia alguém para tomar conta das crianças. Hoje em dia, a chefe de família se mantém fazendo vendas, faxina, bingos e pequenos serviços, e o auxílio do governo serve para comprar itens de necessidade dos filhos, como material escolar. “A minha maior dificuldade ainda é o desemprego”, conta.

Deve-se avaliar questões subjetivas de cada família - A professora Adriana Mathis chama a atenção para um grupo de mulheres pesquisadas que estão com o benefício do Bolsa Família em suspensão. Ela explica que, sem condições de se manter em um emprego, essas chefes de família buscaram o auxílio governamental para sustento próprio e dos filhos, mas foram penalizadas por não atenderem a todas as exigências do programa. Um destes casos se refere à dificuldades de manter a frequência dos filhos na escola em índices superiores à 60%.

No caso de suspensão do benefício do Bolsa Família por não cumprimento das condicionalidades, a pesquisadora observa que há motivos variados que podem atrapalhar a frequência escolar, como por exemplo problemas na malha de transporte próximo às residências. “Há todo um contexto social, econômico, político e cultural por trás que deve ser pensado para viabilizar política sociais destinadas a esse segmento populacional. As mulheres não podem ser simplesmente culpabilizadas e suspensas do programa por questões eminentemente técnicas”, esclarece a professora.

Por isso, a pesquisa pode contribuir para efetivação de políticas sociais que realmente atendam às novas demandas e necessidades sociais dessas famílias. Para a pesquisadora da UFPA, é necessário que as iniciativas governamentais no Brasil e em Portugal estejam antenadas às questões subjetivas de cada família e de cada mulher, compreendam suas reais necessidades e possam saber como elas lidam com as dificuldades cotidianas no desempenho de suas funções em um mundo cada vez complexo.

Texto: Mariana Vieira e Glauce Monteiro - Assessoria de Comunicação da UFPA

 

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